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Estudo premiado na área de pedagogia do Esporte

Data: 27/03/17
Artigo resultante de tese de doutorado de Carla Luguetti, orientada pelo Prof. Dr. Luiz Dantas, receberá prêmio outorgado pela  American Educational Research Association (AERA). “The life of crime does not pay; stop and think!’: the process of co-constructing a prototype pedagogical model of sport for working with youth from socially vulnerable backgrounds” foi publicado na revista  Physical Education and Sport Pedagogy e escolhido como melhor artigo do ano por meio de votação entre 93 doutores da área. O prêmio será entregue no congresso AERA 2017 Annual Meeting, a ser realizado entre os dias 27 de abril e 1º de Maio em San Antonio (Estados Unidos). A tese de doutorado de Carla foi defendida em 2014 e gerou outras quatro publicações em revistas internacionais. 
 
O estudo analisou o esporte como ferramenta de inclusão social. É muito difundida na sociedade a ideia de que o esporte pode mudar a vida das pessoas, por exemplo, afastando jovens do crime e do tráfico de drogas. Porém, não há evidências científicas que comprovem a eficácia de ações voltadas ao esporte em comunidades de vulnerabilidade social. Para estudar essa questão, Carla analisou um grupo de 17 meninos entre 13 e 15 anos participantes de um projeto de inclusão social por meio do futebol. A pesquisa, realizada durante o ano de 2013, teve coorientação de David Kirk (University of Bedfordshire) e Kimberly Oliver (New Mexico State University).
 
 
Na primeira fase do trabalho, Carla buscou metodologias pedagógicas adequadas à aplicação de um projeto esportivo em comunidades carentes. Após extenso levantamento bibliográfico, a pesquisadora concluiu ser necessário desenvolver um novo modelo pedagógico que pudesse contribuir para o empoderamento desses jovens. Como resultado, na segunda parte de seu estudo, realizado em campo, a pesquisadora não apenas observava os treinos, mas também promovia diálogos semanais com os jovens para discutir questões referentes aos treinos. Com os treinadores, ela debatia formas de aperfeiçoar o treino e a relação com os jovens. Essa ação foi realizada numa das regiões mais pobres da cidade de Santos.
 
Cinco elementos críticos surgiram nesse estudo:
  • A importância de uma pedagogia centrada no aluno, representando a capacidade e a vontade dos treinadores para ouvir os jovens e encontrar formas de ensino que atendam às necessidades deles;
  • Abordagem ativista baseada em questionamentos, processo por meio do qual os jovens podem nomear as suas experiências e, com o auxílio de adultos, transformar sua situação e gerar oportunidades quando possível;
  • Ética do cuidado, significando o respeito aos jovens e afetividade do treinador, que se importa com as situações de vida dos jovens. Por exemplo, para os jovens, um treinador deve ser: "como um psicólogo", "[alguém] que me olha nos olhos", e "alguém que poderia ajudar outras crianças a não ir a uma vida de crime".
  • Atenção para a comunidade. Para lidar com jovens residentes em áreas de vulnerabilidade social, é essencial estar ciente dos problemas com que se deparam à prática de esportes.
  • Comunidade do esporte, na qual treinadores, jovens, pais e pessoas responsáveis pelo projeto esportivo devem trabalhar em conjunto para ajudar os jovens a criar oportunidades. Ou seja, a partir do diálogo, todos os atores da comunidade (alunos, treinadores, coordenadores) atuam juntos para pensar mudanças.
 
No grupo em que foi desenvolvida a tese, os principais problemas apontados pelos jovens foram: violência entre os próprios alunos, tráfico de drogas – muitas vezes dentro da quadra e durante a aula - e carência de saneamento básico. Durante o projeto, a pesquisadora não interferia nos treinos, mas os diálogos que ela propunha levantavam questões que perpassavam para as aulas.
 
 
Os próprios alunos identificaram, por exemplo, a violência como um aspecto negativo do treino e propuseram mudanças de comportamento neste sentido. Em determinado momento, os meninos assumiram um papel de liderança e auxiliavam nos treinos de outros alunos menores. Isso fez com que eles reconhecessem a necessidade de mudar de atitude. Ao final de um ano, os alunos passaram a se comunicar melhor com os outros e a ver os erros como possibilidades de aprendizado, além de terem adquirido mais responsabilidade.
 
Carla ressalta que os resultados de aprendizagem podem variar de acordo com os alunos e que o modelo de ensino ainda precisa ser validado. Isso porque é necessário observar a eficácia do método em outros contextos e com outras pessoas e estudar como os treinadores podem aprender a aplicar os elementos críticos. 
 
 
Um dos desafios enfrentados, relata a pesquisadora, é a dificuldade de dialogar com o jovem, estimulando-o a expressar seus sentimentos e opiniões. Sendo um modelo centrado no aluno e no diálogo, os treinadores devem aprender o modelo menos na teoria e mais na prática. Para isso, ela começou a desenvolver este ano um novo projeto no Guarujá, na Unaerp - universidade onde leciona atualmente. Nesta nova fase de sua linha de pesquisa, ela irá atuar diretamente nos treinos e instruindo alunos de graduação. 
 
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