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Prof. Dr. João Ricardo Cozac

Psicólogo do Esporte (CRP 46314-06); Psicólogo formado pela PUC-SP; Presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte e do Exercício Físico; Vice Presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia do Esporte; Membro acadêmico da Sociedade Sulamericana de Psicologia do Esporte; Diretor Clínico da empresa "Consultoria, Estudo e Pesquisa da Psicologia do Esporte"; Professor responsável pelo Curso de Formação em Psicologia do Esporte desde 1995; Mestre em Educação – Universidade Mackenzie; Doutorando pela Escola de Esportes da Faculdade de Educação Física – USP; Autor dos livros “Psicologia do Esporte: clínica, alta performance e atividade física” e “Com a cabeça na ponta da chuteira” (ambos editados pela Annablume editora) e “Psicologia do Esporte: atleta e ser humano em ação” (editora Rocca – lançamento 2014). Colunista do jornal “A Gazeta Esportiva” desde 1999 onde assina a coluna “Gol de Cabeça”; Colunista da Revista 02 de corrida e maratona. Colaborador da Revista “The Finisher”.

Colaborador do jornal “Eldorado Esportes” na Radio Eldorado. Professor do curso de extensão em Psicologia do Esporte na Universidade Mackenzie entre 2000 e 2002; Foi psicólogo do esporte no Sport Clube Corinthians Paulista (futebol profissional) em 1997 – no Goiás Esporte Clube (Futebol profissional) – 1999 - no Cruzeiro Esporte Clube (futebol amador e profissional) – 2000 a 2002. Na Sociedade Esportiva Palmeiras (futebol profissional) em 2005 e no Ituano Futebol Clube (2011). Foi psicólogo do esporte da Seleção Brasileira de Ginástica Rítmica Desportiva em 2004,; Realizou a preparação psicológica dos árbitros da Comissão Paulista de Arbitragem da Federação Paulista de Futebol em 2005.. Atende atletas e equipes de diversas modalidades e categorias. Atua no esporte desde 1993.

Cartão vermelho: Raiva, violência e agressão intencional no jogo de futebol

A Violência no universo do futebol. Seja em matérias jornalísticas sobre agressões, entre torcidas, discussões aquecidas dentro do campo ou até em brigas generalizadas entre integrantes de diferentes times no campo de futebol

Cozac, João Ricardo; Mello, Daniel, 2013

Violência é um tema recorrente no universo do futebol. Seja em matérias jornalísticas sobre agressões, entre torcidas, discussões aquecidas dentro do campo ou até em brigas generalizadas entre integrantes de diferentes times no campo de futebol. Como tentativa de coibir a violência, a FIFA (Fédération Internationale de Football Association), entidade máxima o futebol, em seus torneios oficiais, inicia cada jogo com uma cerimonia em que os jogadores de ambos os times entram lado a lado, seguindo duas bandeiras: uma com o logotipo da FIFA e outra com mensagens e símbolos do Fair Play. Fair Play, em inglês, significa jogo limpo, ou jogo justo. A entidade se posiciona de maneira claramente contrária a qualquer forma de violência, dentro ou fora dos gramados, inclusive premiando o time mais disciplinado da competição com o “Troféu Fair Play”. A UEFA (Union of European Football Associations) criou a campanha do Respect (respeito), em que pretende proteger o jogo e seus torcedores, patrocinando campanhas anti-racismo, de respeito a diversidade, orientação sexual, saúde, cultura e outros interesses comuns aos países europeus. Por outro lado, percebemos uma crença que permeia o “inconsciente futebolístico”, que ocasionalmente aparece em lapsos coletivos e individuais, afirmando que o futebol é um esporte agressivo, jogado por guerreiros que devem “honrar a camisa” e lutar pelo time até as últimas consequências. A crença popular é que a agressividade é necessária para formar jogadores fortes e corajosos. Referimos a jogos como “batalhas”. Utilizamos termos como guerreiros, mata-mata, matar a jogada, quando na realidade estamos nos referindo a aspectos do esporte. Apelidos de jogadores como Hulk, He-Man e Gladiador também ressaltam o que a torcida e a mídia valorizam no jogador de futebol profissional. Frases violentas são utilizadas para descrever o empenho do atleta para ajudar sua equipe, como “entrou com a faca nos dentes” ou “jogou com sangue-nos-olhos”. Apesar da ênfase nas características ligadas a força, agressividade e virilidade do jogador, se diz popularmente que todo time necessita de um atleta “cérebro” da equipe, o jogador que pensa a jogada. Curiosamente, é este tipo de jogador que a mídia comenta estar em falta no futebol brasileiro. Será que isso se deve a essa exaltação da voracidade? Como o cérebro humano, responsável pela criatividade do jogador, raciocínio espacial, e controle motor se comporta quando o indivíduo está “superativado” em um momento de raiva? O nível de ativação psicofisiológico está relacionado a uma série de fatores no corpo e mente do atleta. Uma sequencia de sensações, pensamentos e emoções individuais acontecem de forma encoberta, e o jogador demonstra maior energia, maior força e muitas vezes maior raiva. Este estágio pode muitas vezes ser acessado pelo nível alto de estresse do atleta para aquela prova, competição ou jogo (KHANIN 2000). Em atletas mais explosivos, há aspectos comportamentais perceptíveis a qualquer espectador do jogo, quer assistindo de forma presencial ou pela televisão. A perda do controle racional fica evidente não somente pelos seus atos agressivos, mas também pelo pedido de desculpas que quase sempre acompanha a bobagem realizada, mesmo que horas ou dias depois. É importante definirmos não apenas o que é raiva, mas também entendermos seu relacionamento com a hostilidade, violência e agressão. A raiva é uma emoção que envolve uma série de reações psicofisiológicas. Do ponto de vista fisiológico, ela ativa o sistema nervoso simpático, deixando o corpo preparado para a batalha. No aspecto cognitivo, pensamentos e fantasias de fazer o mal, vingar-se e ferir o outro de forma moral ou física surgem de forma quase espontânea no indivíduo (KAUFMANN, 1970). A raiva não é boa nem má. Sentir raiva é uma reação normal do organismo, e não se espera, de maneira alguma, que isso seja tirado do atleta (ABRAMS, 2010). Em certo grau, ela pode ser útil em alguns momentos para diferentes esportes. No futebol, uma “dose pequena” de raiva pode auxiliar, por exemplo, em uma aceleração rápida em direção à bola e na potência do chute, já que ela é associada com um aumento de força muscular. Mas se o armador do time, ou seja, o homem que constrói as jogadas, estiver também neste mesmo nível de raiva, o processamento cognitivo lentificado e a falta de precisão e coordenação fina do movimento que acompanham essa emoção podem prejudicá-lo. Khanin (apud SPIELBERG, KRASNER E SOLOMON, 1988) define a hostilidade como um traço de comportamento. Já a agressão é uma manifestação comportamental da raiva e da hostilidade. Momentos de raiva muito intensa tendem a resultarem em atos hostis ou até agressões, dependendo da atitude do atleta. A violência no esporte é definida por Terry e Jackson (1985) como comportamentos que prejudicam o outro e fogem das regras do esporte, sem relação direta com o objetivo da modalidade. Já a hostilidade pode ser entendida quase como uma raiva crônica. É uma tendência ou traço comportamental, um erro ou distorção cognitiva de como o indivíduo enxerga o mundo. Um viés hostil (ABRAMS, 2010). Lipp (2005) diz que a raiva tem o poder de energizar para nos preparar para a ação. Porém, quando descontrolada, se assemelha a um incêndio destrutivo. O espectador de jogos de futebol atento pode perceber quando um time entra em campo com uma energia de ativação acima da ideal. Se este time é provocado pelos rivais pela importância do jogo, campeonato ou pontuação. Mesmo que tenha 90 minutos para, por exemplo, vencer de 1 a 0, já se inicia o jogo em clara situação de desespero, correndo como se cada minuto fosse o último. Após certo tempo, a raiva de alguns jogadores fica incontrolável, até culminar em comportamentos violentos como brigas, lesões e até expulsões. Essa “energia excessiva” é fruto de um aumento de ativação psicomotora. Quando o sistema nervoso recebe um sinal de perigo, real ou imaginário, uma reação hormonal em cadeia se inicia para deixar o corpo preparado para lutar ou fugir. Os hormônios do estresse e da raiva aceleram os batimentos cardíacos, aumentam a taxa de respiração, dilatam a pupila, inibem o sistema digestório, tencionam os músculos, aprontando assim o indivíduo para a batalha. Por mais que o jogo de futebol seja comparado no senso comum com uma batalha, o jogador real de futebol necessita de diversas funções técnicas e táticas, que vão além de força e vontade, alguns exemplos são: A. Calcular o tempo correto para tirar a bola do adversário, anteciparse a ele, receber passe, lançar a bola ao companheiro sem coloca-lo em posição de impedimento (todos resumidos ao vulgo “tempo de bola”) B. Controle motor fino para acertar um passe ou um chute; C. Paciência para não agredir um adversário provocador – e assim acabar expulso. D. Controlar a energia para não lançar a bola com maior força do que o necessário (vulgo “esticar demais o passe”). E. Perceber adversários que podem tomar-lhe a bola. F. Permanecer no local do campo em que o técnico designou – mesmo se não houver ação naquele momento. G. Não reclamar de forma acentuada com o árbitro do jogo ou adversário. H. Tomar a bola do adversário de forma limpa, sem agredi-lo, usando de “força proporcional à jogada”. Raiva-traço e raiva-estado É bastante conhecido dos os psicólogos do esporte os termos “ansiedade-traço” e “ansiedade-estado”, que são, respectivamente, uma tendência comportamental e a ansiedade que o atleta pode sentir em certo momento da competição ou da vida. Spielberg (1988) também dividiu a raiva em traço (T-Anger) e estado (S-Anger). Os espectadores que comentamos no início do capitulo podem facilmente perceber quando um jogador com raiva-traço alta expressa sua ira dentro de campo, porém, são quase imperceptíveis os momentos em que um atleta com raiva-traço baixa está furioso. Os atletas que poderíamos chamar de “facilmente irritáveis“ (com raivatraço alta), vivem boa parte de suas carreiras no limite do estresse dentro de campo, e acabam sendo facilmente identificados pelos dirigentes, comissões técnicas, mídia e apreciadores do futebol por suas frequentes “explosões emocionais”. Esses muitas vezes tem a carreira marcada pela “perda de paciência”, ou até por atos agressivos cometidos durante jogos. Além de estarem sempre em risco de se machucarem ou lesionarem adversários, esses atletas sofrem com muitas expulsões, prejudicam suas equipes e muitas vezes por isso, suas contratações são bastante ponderadas pelos dirigentes antes de se concretizarem. Quando conhecido publicamente, seu temperamento pode virar alvo da estratégia do time adversário. Observamos muitos zagueiros provocando atacantes propositalmente, utilizando este ponto fraco a seu favor, forçando assim, um cartão amarelo ou expulsão. O fato das “explosões de raiva” serem frequentes em vários esportes pode levar o espectador a acreditar que atletas são mais violentos do que as que estão a sua volta. Porém, sabe-se que o espetáculo esportivo é um microcosmo de nossa sociedade, e a violência que se vê nos campos de futebol é reflexo da hostilidade que permeia a cultura (ABRAMS, 2010). O uso da agressividade Caballo (2003) utiliza o termo assertividade quando se refere a um comportamento em que o indivíduo defende seus direitos de forma objetiva, com o propósito de chegar ao resultado desejado. Para Caballo e diversos outros pesquisadores da psicologia, a diferença entre um comportamento assertivo e um agressivo é o respeito pelo direito do outro. Quando se age com agressividade sacrificam-se os direitos do outro por beneficio próprio. Silva (1978) divide de forma diferente esses comportamentos. O autor cita que ainda há outra forma de agressividade, a agressividade-instrumental. Neste caso, o objetivo das ações do esportista não seria agredir o outro, mas sim, cumprir uma meta real do esporte. Porém, é comum pessoas serem atingidas neste processo, como por exemplo, um jogador de futebol chutar o tornozelo do adversário tentando tomar uma bola ou um goleiro ser chutado durante a defesa de um gol. Pode-se pensar que se um jogador de futebol pula para “dividir” uma bola de cabeça, e acaba por ferir-se ou ferir o outro atleta, isso não foi necessariamente um ato agressivo, ou de agressão-instrumental. A disputa faz parte do jogo, e é direito de ambos os atletas de pleitearem a bola. Motivo este que, salvo raras exceções, nenhum dos jogadores é advertido pelo árbitro. Smith (1983) diz que todo comportamento em direção a alguma meta é instrumental por si só, portanto, a diferença entre uma agressividadeinstrumental e um ato violento seria o objetivo do atleta em agredir o outro neste processo ou não. Pela visão de agressão-instrumental de Silva (1978) ou pela assertividade de Caballo (2003), é certo que, o que nos concerne neste momento, é a agressão proposital a outro indivíduo, principalmente esta sendo fruto de raiva. Raiva, genética e ambiente Diversos estudos mostram que a maneira como o indivíduo expressa sua raiva não é inata, ou seja, se um atleta reage de forma mais, ou menos agressiva a uma situação incômoda depende muito menos dos aspectos hereditários do que se imaginava. A expressão da raiva, em sua maior parte, é aprendida como outros comportamentos, pelas consequências de experiências anteriores (KHANIN, 2000). Lipp (2005) organiza essas informações e aponta possíveis consequências, em uma tabela que leva em consideração a genética (estruturas físicas inatas geneticamente determinadas), e o ambiente (a criação dos pais, reforços para determinados comportamentos, valores ensinados, entre outros), que moldam a maneira como o indivíduo vê o mundo, minimizando ou maximizando essas distorções cognitivas, como ilustrado na Figura 1. Figura 1 – Fluxograma de Interações entre vulnerabilidades genéticas e ambientais (LIPP, 2005 adaptado por MELLO e COZAC, 2012) Caballo (2003) afirma que, a maneira que o comportamento é modelado na infância e adolescência não depende apenas do contato com os pais e professores, mas principalmente da relação com os pares, isto é, com amigos, colegas e outras crianças/ adolescentes que o indivíduo se relaciona na sua juventude. Suscetíve Não-suscetível Genética Inadequado Adequado Resultado Vulnerabilidade agravada. Cronicamente nervoso. Quase invulnerável aos desafios Vulnerabilidades podem surgir. Pode prevalecer tanto a genética, quanto o ambiente. Vulnerabilidade reduzida As habilidades sociais, de forma geral, são adquiridas por uma combinação entre o ambiente em que este indivíduo está inserido e a sua predisposição biológica: temperamento inato, formado geneticamente por estruturas do sistema nervoso (CABALLO 2003). Pesquisas demonstram que sujeitos expostos a cenas de violência tem maior probabilidade de se comportarem da mesma maneira quando tiverem oportunidade (SMITH, 1983), ressaltando mais uma vez, que este comportamento pode ser aprendido, assim como também desaprendido. É importante ressaltar que a reação agressiva e violenta por si só não é uma anormalidade. É o modo como o comportamento foi adaptado para atingir uma resposta. Muitas vezes o objetivo do comportamento agressivo não é propriamente ferir o adversário moral ou fisicamente, mas aliviar um sentimento desagradável. Assim, a agressão é utilizada como uma forma catártica de liberar essa frustração no ambiente. Erroneamente, o senso comum diz que extravasando a raiva os indivíduos estão, de alguma forma, se livrando dela, mas estudos demonstram que isso pode fazer com que o sujeito cometa mais atos agressivos para se ver livre deste sentimento. Estes estudos mostram que indivíduos que expressam sua raiva batendo em uma almofada, quebrando pratos ou socando um boneco, são imediatamente gratificados pelo cérebro com uma sensação de bem-estar. O problema é que isso apenas reforça o comportamento violento. Quando o atleta sente raiva durante o jogo ele irá procurar, naturalmente, uma maneira rápida de se livrar da sensação desagradável e neste caso, a maneira aprendida foi justamente a violência, a agressão. Roberts (2004), cita que se as situações que reforçam o comportamento agressivo do indivíduo não forem modificadas, a conduta agressiva tende a se manter ou piorar. Atos de agressão tem maior probabilidade de acontecer novamente se os efeitos do comportamento trazem vantagens para o agressor. Quando um jogador comete um ato agressivo e consegue que o seu adversário seja expulso, ou obtém um elogio de seu treinador e dirigentes, este comportamento agressivo provavelmente ocorrerá novamente, mas talvez com um resultado diferente. Se esse mesmo comportamento é ora reforçado, ora punido ou até mesmo ignorado, de maneira intermitente, há maior probabilidade dele se manter ou aumentar. Porém, se certa conduta é sempre tratada como errada, e o agressor sempre tem desvantagens por causa dela, a tendência é que o comportamento diminua sua frequência (DATILLIO E FREEMAN, 2010). Ainda mais relevante do que detalhar o processo de aprendizagem do comportamento agressivo é ressaltar que os estímulos que levam um atleta a sentir raiva e responder, ou não, de forma agressiva são diferentes. Um jogador pode se sentir extremamente ofendido por um xingamento, enquanto outro no seu lugar relevaria e seguiria o jogo normalmente. Mas, esse mesmo jogador, aparentemente mais tranquilo, pode se sentir profundamente frustrado quando perde diversos lances seguidos, ou seja, os mesmos estímulos podem ser neutros ou aversivos para atletas diferentes. Um estímulo aversivo, como alguma pancada, um xingamento, uma injustiça, gera no atleta com tendência agressiva uma reação em cadeia de processos cognitivos, que pode levar ao comportamento de violência, mesmo que este saiba racionalmente que isto irá atrapalhar seu time e prejudica-lo. Abrams (2010) identificou quatro categorias principais de pensamentos disfuncionais. Erros cognitivos que acontecem durante o processo que leva o atleta com raiva a cometer um ato de agressão. Estas categorias estão expostas na Tabela 1, assim como exemplos de reações e pensamentos automáticos que podem ocorrer. Situação Numa partida de futebol, um atacante, ao tentar driblar um zagueiro, acaba batendo o seu braço no ombro do adversário que perde o equilíbrio e vai ao chão. O defensor se levanta irrCozac, João Ricardo; Mello, Daniel, 2013 Violência é um tema recorrente no universo do futebol. Seja em matérias jornalísticas sobre agressões, entre torcidas, discussões aquecidas dentro do campo ou até em brigas generalizadas entre integrantes de diferentes times no campo de futebol. Como tentativa de coibir a violência, a FIFA (Fédération Internationale de Football Association), entidade máxima o futebol, em seus torneios oficiais, inicia cada jogo com uma cerimonia em que os jogadores de ambos os times entram lado a lado, seguindo duas bandeiras: uma com o logotipo da FIFA e outra com mensagens e símbolos do Fair Play. Fair Play, em inglês, significa jogo limpo, ou jogo justo. A entidade se posiciona de maneira claramente contrária a qualquer forma de violência, dentro ou fora dos gramados, inclusive premiando o time mais disciplinado da competição com o “Troféu Fair Play”. A UEFA (Union of European Football Associations) criou a campanha do Respect (respeito), em que pretende proteger o jogo e seus torcedores, patrocinando campanhas anti-racismo, de respeito a diversidade, orientação sexual, saúde, cultura e outros interesses comuns aos países europeus. Por outro lado, percebemos uma crença que permeia o “inconsciente futebolístico”, que ocasionalmente aparece em lapsos coletivos e individuais, afirmando que o futebol é um esporte agressivo, jogado por guerreiros que devem “honrar a camisa” e lutar pelo time até as últimas consequências. A crença popular é que a agressividade é necessária para formar jogadores fortes e corajosos. Referimos a jogos como “batalhas”. Utilizamos termos como guerreiros, mata-mata, matar a jogada, quando na realidade estamos nos referindo a aspectos do esporte. Apelidos de jogadores como Hulk, He-Man e Gladiador também ressaltam o que a torcida e a mídia valorizam no jogador de futebol profissional. Frases violentas são utilizadas para descrever o empenho do atleta para ajudar sua equipe, como “entrou com a faca nos dentes” ou “jogou com sangue-nos-olhos”. Apesar da ênfase nas características ligadas a força, agressividade e virilidade do jogador, se diz popularmente que todo time necessita de um atleta “cérebro” da equipe, o jogador que pensa a jogada. Curiosamente, é este tipo de jogador que a mídia comenta estar em falta no futebol brasileiro. Será que isso se deve a essa exaltação da voracidade? Como o cérebro humano, responsável pela criatividade do jogador, raciocínio espacial, e controle motor se comporta quando o indivíduo está “superativado” em um momento de raiva? O nível de ativação psicofisiológico está relacionado a uma série de fatores no corpo e mente do atleta. Uma sequencia de sensações, pensamentos e emoções individuais acontecem de forma encoberta, e o jogador demonstra maior energia, maior força e muitas vezes maior raiva. Este estágio pode muitas vezes ser acessado pelo nível alto de estresse do atleta para aquela prova, competição ou jogo (KHANIN 2000). Em atletas mais explosivos, há aspectos comportamentais perceptíveis a qualquer espectador do jogo, quer assistindo de forma presencial ou pela televisão. A perda do controle racional fica evidente não somente pelos seus atos agressivos, mas também pelo pedido de desculpas que quase sempre acompanha a bobagem realizada, mesmo que horas ou dias depois. É importante definirmos não apenas o que é raiva, mas também entendermos seu relacionamento com a hostilidade, violência e agressão. A raiva é uma emoção que envolve uma série de reações psicofisiológicas. Do ponto de vista fisiológico, ela ativa o sistema nervoso simpático, deixando o corpo preparado para a batalha. No aspecto cognitivo, pensamentos e fantasias de fazer o mal, vingar-se e ferir o outro de forma moral ou física surgem de forma quase espontânea no indivíduo (KAUFMANN, 1970). A raiva não é boa nem má. Sentir raiva é uma reação normal do organismo, e não se espera, de maneira alguma, que isso seja tirado do atleta (ABRAMS, 2010). Em certo grau, ela pode ser útil em alguns momentos para diferentes esportes. No futebol, uma “dose pequena” de raiva pode auxiliar, por exemplo, em uma aceleração rápida em direção à bola e na potência do chute, já que ela é associada com um aumento de força muscular. Mas se o armador do time, ou seja, o homem que constrói as jogadas, estiver também neste mesmo nível de raiva, o processamento cognitivo lentificado e a falta de precisão e coordenação fina do movimento que acompanham essa emoção podem prejudicá-lo. Khanin (apud SPIELBERG, KRASNER E SOLOMON, 1988) define a hostilidade como um traço de comportamento. Já a agressão é uma manifestação comportamental da raiva e da hostilidade. Momentos de raiva muito intensa tendem a resultarem em atos hostis ou até agressões, dependendo da atitude do atleta. A violência no esporte é definida por Terry e Jackson (1985) como comportamentos que prejudicam o outro e fogem das regras do esporte, sem relação direta com o objetivo da modalidade. Já a hostilidade pode ser entendida quase como uma raiva crônica. É uma tendência ou traço comportamental, um erro ou distorção cognitiva de como o indivíduo enxerga o mundo. Um viés hostil (ABRAMS, 2010). Lipp (2005) diz que a raiva tem o poder de energizar para nos preparar para a ação. Porém, quando descontrolada, se assemelha a um incêndio destrutivo. O espectador de jogos de futebol atento pode perceber quando um time entra em campo com uma energia de ativação acima da ideal. Se este time é provocado pelos rivais pela importância do jogo, campeonato ou pontuação. Mesmo que tenha 90 minutos para, por exemplo, vencer de 1 a 0, já se inicia o jogo em clara situação de desespero, correndo como se cada minuto fosse o último. Após certo tempo, a raiva de alguns jogadores fica incontrolável, até culminar em comportamentos violentos como brigas, lesões e até expulsões. Essa “energia excessiva” é fruto de um aumento de ativação psicomotora. Quando o sistema nervoso recebe um sinal de perigo, real ou imaginário, uma reação hormonal em cadeia se inicia para deixar o corpo preparado para lutar ou fugir. Os hormônios do estresse e da raiva aceleram os batimentos cardíacos, aumentam a taxa de respiração, dilatam a pupila, inibem o sistema digestório, tencionam os músculos, aprontando assim o indivíduo para a batalha. Por mais que o jogo de futebol seja comparado no senso comum com uma batalha, o jogador real de futebol necessita de diversas funções técnicas e táticas, que vão além de força e vontade, alguns exemplos são: A. Calcular o tempo correto para tirar a bola do adversário, anteciparse a ele, receber passe, lançar a bola ao companheiro sem coloca-lo em posição de impedimento (todos resumidos ao vulgo “tempo de bola”) B. Controle motor fino para acertar um passe ou um chute; C. Paciência para não agredir um adversário provocador – e assim acabar expulso. D. Controlar a energia para não lançar a bola com maior força do que o necessário (vulgo “esticar demais o passe”). E. Perceber adversários que podem tomar-lhe a bola. F. Permanecer no local do campo em que o técnico designou – mesmo se não houver ação naquele momento. G. Não reclamar de forma acentuada com o árbitro do jogo ou adversário. H. Tomar a bola do adversário de forma limpa, sem agredi-lo, usando de “força proporcional à jogada”. Raiva-traço e raiva-estado É bastante conhecido dos os psicólogos do esporte os termos “ansiedade-traço” e “ansiedade-estado”, que são, respectivamente, uma tendência comportamental e a ansiedade que o atleta pode sentir em certo momento da competição ou da vida. Spielberg (1988) também dividiu a raiva em traço (T-Anger) e estado (S-Anger). Os espectadores que comentamos no início do capitulo podem facilmente perceber quando um jogador com raiva-traço alta expressa sua ira dentro de campo, porém, são quase imperceptíveis os momentos em que um atleta com raiva-traço baixa está furioso. Os atletas que poderíamos chamar de “facilmente irritáveis“ (com raivatraço alta), vivem boa parte de suas carreiras no limite do estresse dentro de campo, e acabam sendo facilmente identificados pelos dirigentes, comissões técnicas, mídia e apreciadores do futebol por suas frequentes “explosões emocionais”. Esses muitas vezes tem a carreira marcada pela “perda de paciência”, ou até por atos agressivos cometidos durante jogos. Além de estarem sempre em risco de se machucarem ou lesionarem adversários, esses atletas sofrem com muitas expulsões, prejudicam suas equipes e muitas vezes por isso, suas contratações são bastante ponderadas pelos dirigentes antes de se concretizarem. Quando conhecido publicamente, seu temperamento pode virar alvo da estratégia do time adversário. Observamos muitos zagueiros provocando atacantes propositalmente, utilizando este ponto fraco a seu favor, forçando assim, um cartão amarelo ou expulsão. O fato das “explosões de raiva” serem frequentes em vários esportes pode levar o espectador a acreditar que atletas são mais violentos do que as que estão a sua volta. Porém, sabe-se que o espetáculo esportivo é um microcosmo de nossa sociedade, e a violência que se vê nos campos de futebol é reflexo da hostilidade que permeia a cultura (ABRAMS, 2010). O uso da agressividade Caballo (2003) utiliza o termo assertividade quando se refere a um comportamento em que o indivíduo defende seus direitos de forma objetiva, com o propósito de chegar ao resultado desejado. Para Caballo e diversos outros pesquisadores da psicologia, a diferença entre um comportamento assertivo e um agressivo é o respeito pelo direito do outro. Quando se age com agressividade sacrificam-se os direitos do outro por beneficio próprio. Silva (1978) divide de forma diferente esses comportamentos. O autor cita que ainda há outra forma de agressividade, a agressividade-instrumental. Neste caso, o objetivo das ações do esportista não seria agredir o outro, mas sim, cumprir uma meta real do esporte. Porém, é comum pessoas serem atingidas neste processo, como por exemplo, um jogador de futebol chutar o tornozelo do adversário tentando tomar uma bola ou um goleiro ser chutado durante a defesa de um gol. Pode-se pensar que se um jogador de futebol pula para “dividir” uma bola de cabeça, e acaba por ferir-se ou ferir o outro atleta, isso não foi necessariamente um ato agressivo, ou de agressão-instrumental. A disputa faz parte do jogo, e é direito de ambos os atletas de pleitearem a bola. Motivo este que, salvo raras exceções, nenhum dos jogadores é advertido pelo árbitro. Smith (1983) diz que todo comportamento em direção a alguma meta é instrumental por si só, portanto, a diferença entre uma agressividadeinstrumental e um ato violento seria o objetivo do atleta em agredir o outro neste processo ou não. Pela visão de agressão-instrumental de Silva (1978) ou pela assertividade de Caballo (2003), é certo que, o que nos concerne neste momento, é a agressão proposital a outro indivíduo, principalmente esta sendo fruto de raiva. Raiva, genética e ambiente Diversos estudos mostram que a maneira como o indivíduo expressa sua raiva não é inata, ou seja, se um atleta reage de forma mais, ou menos agressiva a uma situação incômoda depende muito menos dos aspectos hereditários do que se imaginava. A expressão da raiva, em sua maior parte, é aprendida como outros comportamentos, pelas consequências de experiências anteriores (KHANIN, 2000). Lipp (2005) organiza essas informações e aponta possíveis consequências, em uma tabela que leva em consideração a genética (estruturas físicas inatas geneticamente determinadas), e o ambiente (a criação dos pais, reforços para determinados comportamentos, valores ensinados, entre outros), que moldam a maneira como o indivíduo vê o mundo, minimizando ou maximizando essas distorções cognitivas, como ilustrado na Figura 1. Figura 1 – Fluxograma de Interações entre vulnerabilidades genéticas e ambientais (LIPP, 2005 adaptado por MELLO e COZAC, 2012) Caballo (2003) afirma que, a maneira que o comportamento é modelado na infância e adolescência não depende apenas do contato com os pais e professores, mas principalmente da relação com os pares, isto é, com amigos, colegas e outras crianças/ adolescentes que o indivíduo se relaciona na sua juventude. Suscetíve Não-suscetível Genética Inadequado Adequado Resultado Vulnerabilidade agravada. Cronicamente nervoso. Quase invulnerável aos desafios Vulnerabilidades podem surgir. Pode prevalecer tanto a genética, quanto o ambiente. Vulnerabilidade reduzida As habilidades sociais, de forma geral, são adquiridas por uma combinação entre o ambiente em que este indivíduo está inserido e a sua predisposição biológica: temperamento inato, formado geneticamente por estruturas do sistema nervoso (CABALLO 2003). Pesquisas demonstram que sujeitos expostos a cenas de violência tem maior probabilidade de se comportarem da mesma maneira quando tiverem oportunidade (SMITH, 1983), ressaltando mais uma vez, que este comportamento pode ser aprendido, assim como também desaprendido. É importante ressaltar que a reação agressiva e violenta por si só não é uma anormalidade. É o modo como o comportamento foi adaptado para atingir uma resposta. Muitas vezes o objetivo do comportamento agressivo não é propriamente ferir o adversário moral ou fisicamente, mas aliviar um sentimento desagradável. Assim, a agressão é utilizada como uma forma catártica de liberar essa frustração no ambiente. Erroneamente, o senso comum diz que extravasando a raiva os indivíduos estão, de alguma forma, se livrando dela, mas estudos demonstram que isso pode fazer com que o sujeito cometa mais atos agressivos para se ver livre deste sentimento. Estes estudos mostram que indivíduos que expressam sua raiva batendo em uma almofada, quebrando pratos ou socando um boneco, são imediatamente gratificados pelo cérebro com uma sensação de bem-estar. O problema é que isso apenas reforça o comportamento violento. Quando o atleta sente raiva durante o jogo ele irá procurar, naturalmente, uma maneira rápida de se livrar da sensação desagradável e neste caso, a maneira aprendida foi justamente a violência, a agressão. Roberts (2004), cita que se as situações que reforçam o comportamento agressivo do indivíduo não forem modificadas, a conduta agressiva tende a se manter ou piorar. Atos de agressão tem maior probabilidade de acontecer novamente se os efeitos do comportamento trazem vantagens para o agressor. Quando um jogador comete um ato agressivo e consegue que o seu adversário seja expulso, ou obtém um elogio de seu treinador e dirigentes, este comportamento agressivo provavelmente ocorrerá novamente, mas talvez com um resultado diferente. Se esse mesmo comportamento é ora reforçado, ora punido ou até mesmo ignorado, de maneira intermitente, há maior probabilidade dele se manter ou aumentar. Porém, se certa conduta é sempre tratada como errada, e o agressor sempre tem desvantagens por causa dela, a tendência é que o comportamento diminua sua frequência (DATILLIO E FREEMAN, 2010). Ainda mais relevante do que detalhar o processo de aprendizagem do comportamento agressivo é ressaltar que os estímulos que levam um atleta a sentir raiva e responder, ou não, de forma agressiva são diferentes. Um jogador pode se sentir extremamente ofendido por um xingamento, enquanto outro no seu lugar relevaria e seguiria o jogo normalmente. Mas, esse mesmo jogador, aparentemente mais tranquilo, pode se sentir profundamente frustrado quando perde diversos lances seguidos, ou seja, os mesmos estímulos podem ser neutros ou aversivos para atletas diferentes. Um estímulo aversivo, como alguma pancada, um xingamento, uma injustiça, gera no atleta com tendência agressiva uma reação em cadeia de processos cognitivos, que pode levar ao comportamento de violência, mesmo que este saiba racionalmente que isto irá atrapalhar seu time e prejudica-lo. Abrams (2010) identificou quatro categorias principais de pensamentos disfuncionais. Erros cognitivos que acontecem durante o processo que leva o atleta com raiva a cometer um ato de agressão. Estas categorias estão expostas na Tabela 1, assim como exemplos de reações e pensamentos automáticos que podem ocorrer. Situação Numa partida de futebol, um atacante, ao tentar driblar um zagueiro, acaba batendo o seu braço no ombro do adversário que perde o equilíbrio e vai ao chão. O defensor se levanta irritado, reclamando e dá um empurrão no atacante. Erro Cognitivo Exemplos Tendência a perceber estímulos comuns como provocativos O defensor tem certeza de que o esbarrão foi uma provocação e de que está sendo desafiado. Por isso vai tirar satisfações, pronto para brigar. Dificuldade em identificar explicações não hostis para um acontecimento Se o questionam quanto á possibilidade de existir outra explicação para o esbarrão do atacante, o defensor diz: “Não. Ele quis me provocar”. Dificuldade em pensar alternativas não violentas para lidar com uma situação. Se solicitarem ao zagueiro que anote outras atitudes que poderia ter tomado (além de agredir o atacante) o defensor fica confuso e tem dificuldades para imaginar outras saídas. Legitimação da violência. Escolha racional pelo ato hostil. Pensamentos como: “é importante demonstrar autoridade e defender a honra com agressões, intimidando para não se mostrar indefeso”. Tabela 1 (ABRAMS, 2010. Adaptado por MELLO e COZAC 2012). Com isso, percebe-se que a aceleração do batimento cardíaco, tensão muscular excessiva e outros sintomas de ativação fisiológica que acompanham a raiva, são acionados principalmente pela maneira disfuncional de “decodificar” as informações do ambiente, fazendo com que o atleta enxergue a situação de forma parcial, sem encontrar outras explicações para o ato do outro, senão a hostilidade. A raiva crescente gerada pelo pensamento disfuncional somada á ausência de alternativas não agressivas no repertório comportamental do atleta pode fazer com que ele expresse sua raiva de maneira exacerbada com o uso da violência, agredindo o indivíduo que causa a situação aversiva. Muitas vezes isso resulta no alívio quase imediato do sentimento desagradável que acompanha esse pensamento, causando em contrapartida problemas futuros para ele e para o time. Conclusão A raiva é um sentimento normal que ocorre no atleta, mas a maneira como ele lida com ela pode ser determinante para o seu desempenho dentro de campo. O sentimento desagradável, a ativação psicofisiológica e a expressão da raiva durante o jogo são processos cognitivos e comportamentais que podem ser trabalhados pelo psicólogo esportivo, para que os atletas mais agressivos deixem de acreditar que a agressividade seja um aspecto imutável de sua personalidade. É importante que o psicólogo esportivo, através do seu conhecimento dos processos da raiva, treine e oriente o atleta a lidar com a suas emoções e sua agressividade, sem precisar recorrer à violência, para evitar que, em um momento de “explosão”, prejudique a si mesmo e a sua equipe. Referências Bibliográficas Abrams, Mitch. Anger Management in Sport: Understanding and Controlling Violence in Athletes. Champaign, IL: Human Kinetics, 2010. Caballo, V. E. Manual de avaliação e treinamento das habilidades sociais. São Paulo: Santos, 2003. Dattilio, Frank M., and Arthur Freeman. Cognitive-behavioral Strategies in Crisis Intervention. New York: Guilford, 2010. Kauffmann, H. Agression and altruism. New York: Holt, Rinehard & Winston, 1970. hanin, L. Emotions in Sport. Champaign, IL: Human Kinetics, 2000. Lipp, Marilda Emmanuel Novaes. Stress E O Turbilhão Da Raiva. São Paulo: Casa Do Psicólogo, 2005. Roberts, A. R. Juvenile justice sourcebook: Past presente and future. New York: Oxford University Press, 2004. Silva, J.M. Assertive and aggressive behavior in sport: A definitional clarification. In Naedau, C.H. et al. (Eds.), Psychology of motor behavior and sport (pp. 199-208). Champaign, 111: Human Kinetics, 1978. Smith, M D. Violence and sppp, Toronto, ON: Butterworths, 1983. Terry, P. C. e Jackson, J. J. The determinants and control of violence in sport. Quest, 37(1), 27 – 37, 1985.itado, reclamando e dá um empurrão no atacante. Erro Cognitivo Exemplos Tendência a perceber estímulos comuns como provocativos O defensor tem certeza de que o esbarrão foi uma provocação e de que está sendo desafiado. Por isso vai tirar satisfações, pronto para brigar. Dificuldade em identificar explicações não hostis para um acontecimento Se o questionam quanto á possibilidade de existir outra explicação para o esbarrão do atacante, o defensor diz: “Não. Ele quis me provocar”. Dificuldade em pensar alternativas não violentas para lidar com uma situação. Se solicitarem ao zagueiro que anote outras atitudes que poderia ter tomado (além de agredir o atacante) o defensor fica confuso e tem dificuldades para imaginar outras saídas. Legitimação da violência. Escolha racional pelo ato hostil. Pensamentos como: “é importante demonstrar autoridade e defender a honra com agressões, intimidando para não se mostrar indefeso”. Tabela 1 (ABRAMS, 2010. Adaptado por MELLO e COZAC 2012). Com isso, percebe-se que a aceleração do batimento cardíaco, tensão muscular excessiva e outros sintomas de ativação fisiológica que acompanham a raiva, são acionados principalmente pela maneira disfuncional de “decodificar” as informações do ambiente, fazendo com que o atleta enxergue a situação de forma parcial, sem encontrar outras explicações para o ato do outro, senão a hostilidade. A raiva crescente gerada pelo pensamento disfuncional somada á ausência de alternativas não agressivas no repertório comportamental do atleta pode fazer com que ele expresse sua raiva de maneira exacerbada com o uso da violência, agredindo o indivíduo que causa a situação aversiva. Muitas vezes isso resulta no alívio quase imediato do sentimento desagradável que acompanha esse pensamento, causando em contrapartida problemas futuros para ele e para o time. Conclusão A raiva é um sentimento normal que ocorre no atleta, mas a maneira como ele lida com ela pode ser determinante para o seu desempenho dentro de campo. O sentimento desagradável, a ativação psicofisiológica e a expressão da raiva durante o jogo são processos cognitivos e comportamentais que podem ser trabalhados pelo psicólogo esportivo, para que os atletas mais agressivos deixem de acreditar que a agressividade seja um aspecto imutável de sua personalidade. É importante que o psicólogo esportivo, através do seu conhecimento dos processos da raiva, treine e oriente o atleta a lidar com a suas emoções e sua agressividade, sem precisar recorrer à violência, para evitar que, em um momento de “explosão”, prejudique a si mesmo e a sua equipe. Referências Bibliográficas Abrams, Mitch. Anger Management in Sport: Understanding and Controlling Violence in Athletes. Champaign, IL: Human Kinetics, 2010. Caballo, V. E. Manual de avaliação e treinamento das habilidades sociais. São Paulo: Santos, 2003. Dattilio, Frank M., and Arthur Freeman. Cognitive-behavioral Strategies in Crisis Intervention. New York: Guilford, 2010. Kauffmann, H. Agression and altruism. New York: Holt, Rinehard & Winston, 1970. hanin, L. Emotions in Sport. Champaign, IL: Human Kinetics, 2000. Lipp, Marilda Emmanuel Novaes. Stress E O Turbilhão Da Raiva. São Paulo: Casa Do Psicólogo, 2005. Roberts, A. R. Juvenile justice sourcebook: Past presente and future. New York: Oxford University Press, 2004. Silva, J.M. Assertive and aggressive behavior in sport: A definitional clarification. In Naedau, C.H. et al. (Eds.), Psychology of motor behavior and sport (pp. 199-208). Champaign, 111: Human Kinetics, 1978. Smith, M D. Violence and sppp, Toronto, ON: Butterworths, 1983. Terry, P. C. e Jackson, J. J. The determinants and control of violence in sport. Quest, 37(1), 27 – 37, 1985.

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