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Equipe Lapse

Voleibol no mundo: reflexões (serenas) sobre o “Caso Tiffany” A triste polêmica sobre a atleta de Goiás que optou pela transição de gênero

A questão dos transgêneros no esporte ter aparecido de maneira contundente nos últimos meses, o assunto ainda é discutido timidamente no meio. A questão da inclusão não se discute mas a forma como a inclusão de gênero deve acontecer.

Reportagem de

 

Tiffany Pereira de Abreu, no final de 2012, ainda no Velho Continente, decidiu iniciar uma transição de gênero, enfrentar duas cirurgias e passar por uma re-hormonização. Numa explicação simplista, a paulatina diminuição dos seus teores de testosterona, um hormônio caracteristicamente masculino. Nas mulheres, o índice médio equivale a 10 nanogramas por litro de sangue.

No início de 2017, o seu nível de testosterona já estava muito abaixo dos 10 – houve sucessivas medições de 2,5. E Tiffany recebeu da FIVB, a entidade reguladora do Voleibol no planeta, uma autorização formal para se inscrever em ligas femininas. Em Fevereiro de 2017, logo na sua estréia pelo Golem Volley de Palmi, na Calábria, Série B da Itália, fulgurou ao anotar 28 pontos na vitória sobre o Delta Informàtica Trentino, 3 sets a 1. Além dos fartos aplausos do público, arrebatou o laurel de melhor em quadra na partida.

Tifany

O ortopedista João Grangeiro Neto, ex-voleibolista, o responsável, aliás, pela comissão que concedeu a liberação da Superliga, afirmou que Tiffany passou a sua puberdade como homem e que algum tempo de controle da  testosterona não bastaria para equilibrar sua potência à de uma atleta que cresceu e evoluiu como mulher. Ora, por quê assinou a autorização? Porque Tiffany lhe apresentou toda a crucial documentação exigida pelo COI, o Comitê Olímpico Internacional.

Abro parênteses com um resumo das obrigações impostas pelo COI desde Janeiro de 2017: a identificação da pessoa como pertencente ao gênero feminino e a sua comprovação de estar abaixo dos tais 10 nanogramas através dos últimos doze meses. Não integrava a lista do COI a imperiosidade de uma intervenção de mudança de sexo. Tiffany, de todo modo, já exibia o índice de 2,5 e já havia realizado duas cirurgias.

Cacá Bizzocchi

Medley Vôlei

Além de repisar na questão do hormônio próprio do gênero masculino, Cacá Bizzocchi, outro ex-voleibolista, treinador de fama, manifestou a sua preocupação de que o “Caso Tiffany” possa levar o esporte feminino a “um estado de transformação e descaracterização”. Cheio de dedos, Cacá se escondeu atrás do politicamente correto: “Não é uma questão de inclusão ou de tolerância, mas de equidade fisiológica, igualdade de competitividade e legitimidade.” E ainda ousou uma sugestão absurdamente chocante: “Talvez seja necessário limitar a participação de transexuais a um ou dois por equipe.” Como determinados regulamentos que preveem quotas que evitem abusos na importação de estrangeiros.

Com outras palavras, porém o mesmo argumento sofista, a ex-craque Ana Paula, via redes sociais, insinuou que muitas atletas não se pronunciariam por medo de patrulhamento. E se arvorou em porta-voz das suas colegas: “A maioria não acha justo uma trans jogar com as mulheres. E não é. Corpo foi construído com testosterona durante a vida toda. Não é preconceito, é fisiologia. Por que não, então, uma seleção feminina só com trans? Imbatível!”

Sinto, Ana Paula, você, como Grangeiro e Cacá, ignora o básico da discussão.

Ana Paula

Divulgação

Estatisticamente, Tiffany de fato extrapolou nos pontos em seus embates de princípio de carreira nova na Superliga. Aos poucos, todavia, na medida em que as adversárias aprenderam a marcá-la, e a encará-la nos lances de rede, o volume das suas cortadas se reduziu. A média de Tandara, sim, é inferior. Só que a amostra de Tandara é muito, muito maior. Enquanto os números de Tiffany se referem a 18 sets, os de Tandara se fundamentam em 54. Isso, 254 pontos em 54 sets. E parece óbvio que a média de Tiffany cairá ainda mais.

Tiffany não se sobressai em nenhuma outra categoria que os scouts da Superliga acompanham. E basta testemunhar as suas pugnas ao vivo ou em teipe para constatar que falha demais na recepção e na defesa. Ainda: também não é verdade que tenha preservado a potência que ostentava antes da transição. Perdeu cerca de 60% do seu tônus e da sua força. Saltava até 3m60 de altura (rede a 2m45) e agora se limita a 3m15 (rede a 2m24). Pode-se afirmar que encurtou o seu alcance em 24cm.

Hoje, menos 24cm de alcance

Hoje, menos 24cm de alcance

Golam Volley

E José Roberto Guimarães, o treinador da seleção, que pensa o eternamente ponderado Zé Roberto? A sua resposta se alicerça numa lógica exemplar: “Uma questão simples. Se dentro de quadra fizer o esperado e fizer a diferença, tecnicamente falando, passa a interessar como qualquer outra atleta. Eu quero o melhor. Se for o caso, consultarei a CBV. Não vejo problema nenhum na convocação. Basta que esteja elegível.”

A palavra “elegível” devolve o tema ao rol de obrigações impostas pelo COI e prontamente adotadas pela FIVB. Já sobram, nos bastidores da cartolagem mundial, aqueles que antes se omitiram e agora, por causa da repercussão do, perdão, “caso Tiffany”, comentam que a definição foi compilada apressadamente, de afogadilho. Talvez. Pois a FIVB acaba de determinar, para o dia 24, uma reunião de análise do tema. E o COI anunciou outra para logo após o encerramento dos Jogos de Inverno de  PyeongChang, Coréia do Sul, 25 de Fevereiro. Tudo pode acontecer, inclusive um aumento brutal na quantidade e na intensidade das dificuldades para a transição de gênero.

Divulgação COB

Em qualquer circunstância, pela crônica incompetência da FIBV (presidida, aliás, por um brasileiro, Ary Graça, da trupe de Carlos Arthur Nuzman), pelo superficialismo crônico do COI, restará um único prejudicado na alma e na mente. Prejudicado, quem sabe, irrecuperavelmente: o ser humano Rodrigo/Tiffany ou Tiffany/Rodrigo, o seu nome, convenhamos, não mais importa em nada.

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