O jiu-jitsu como espaço de resistência feminina

Estudo da EEFE analisa a experiência de mulheres na arte marcial e revela como a prática se transforma em empoderamento e pertencimento.

O jiu-jitsu, conhecido como “arte suave”, é hoje a arte marcial mais popular no país, mas ainda é um espaço marcado pela hegemonia masculina. Dados do Diagnóstico Nacional do Esporte (Ministério do Esporte, 2015) apontam que a presença de homens na modalidade é cinco vezes maior do que a de mulheres. Mesmo assim, cada vez mais praticantes femininas persistem nos tatames, enfrentando desafios que vão além da luta corporal.

Na tradução literal, ju, em japonês, significa “suavidade”, “brandura”; e jutsu “arte”, “técnica”. Foto do arquivo pessoal da pesquisadora. 

Para compreender esses percursos, a pesquisadora Luciana Neder Giancristoforo, sob orientação da Profa. Dra. Soraia Chung Saura, desenvolveu em sua dissertação de mestrado uma pesquisa que mergulhou na experiência vivida por seis mulheres com mais de dez anos ininterruptos de prática de jiu-jitsu, além do depoimento da própria pesquisadora, explorando os sentidos atribuídos ao corpo, ao treino e às relações dentro do esporte.

Os relatos mostram que, apesar das dores, das marcas físicas e das barreiras sociais, o jiu-jitsu também é fonte de fascínio e pertencimento. Mais que uma arte marcial, aparece como uma prática que mobiliza afetos, memória e identidade, abrindo espaço para compreender como mulheres constroem sentidos de pertencimento em um ambiente historicamente masculino. 

 

O corpo que luta e aprende 

A pesquisa buscou registrar as mudanças na autopercepção corporal de mulheres praticantes de jiu-jitsu, por meio de entrevistas qualitativas semi-estruturadas de aproximadamente 90 minutos. As participantes tiveram a oportunidade de complementar suas narrativas em encontros adicionais, permitindo um aprofundamento em aspectos complexos ou esquecidos. A análise foi realizada com base em uma abordagem fenomenológica, e, para garantir a privacidade e o conforto, as identidades foram preservadas. 

Além da técnica, a “arte suave” foi descrita como um caminho de transformação pessoal. Para muitas mulheres, o jiu-jitsu se tornou uma escola de consciência corporal, resiliência e igualdade: “O que me fascina no jiu-jitsu é você sempre ser uma aprendiz porque me bota sempre no mesmo lugar de todo mundo. Ninguém está acima de ninguém”, disse uma praticante.

Os depoimentos coincidem na afirmação de que “esse esporte é minha vida, meu fascínio”. Foto retirada do arquivo pessoal da pesquisadora. 

As entrevistadas relataram ainda como a prática influencia na rotina, a forma de viver e até a maneira de se perceber no mundo. Entre a iniciação e a permanência, as narrativas mostram como as mulheres aprendem a lidar com seus limites, desenvolvem autoconfiança e encontram no tatame um espaço de expressão e pertencimento. 

A dissertação também destaca a importância do dojô como espaço de convivência e disciplina. Uma das entrevistadas lembrou: “Desde que comecei no jiu-jitsu, aos 15 anos, eu aprendi que também era responsável pela limpeza do tatame. Esse dia chegou, e realmente continuo limpando todos os tatames que eu piso”. Estes elementos mostram que o aprendizado do jiu-jitsu não se limita ao aspecto técnico, mas se manifesta na vida diária, na forma como as praticantes se relacionam consigo e com os outros, transformando-se em um modo de ser no mundo.

Com a arte marcial, elas relatam que aprenderam a manter a autoconfiança, já que uma postura inadequada pode dar a benefício aos oponentes. Também passaram a expressar seus sentimentos e a dizer ‘não’ quando necessário, especialmente em situações de assédio. Além disso, aprenderam a olhar nos olhos das pessoas para se sentirem mais encorajadas e resolver conflitos do dia a dia, pois saber lidar com o medo é parte da luta.

Coleção de kimono de uma das entrevistadas. Foto retirada do trabalho original. 

A prática também contribui para a saúde mental. Outra entrevistada destacou que o treino vai além do bem-estar físico, mas contribui para melhorar sua insônia, ansiedade, vício no cigarro e para a redução do colesterol. Em suas palavras, ela afirma que, sem o uso de medicamentos, o exercício tem sido a chave para controlar esses aspectos de sua vida, sendo um investimento valioso para a saúde. 

Barreiras, assédio e representatividade

Apesar do fascínio, os depoimentos também revelam dificuldades. O preconceito, a invisibilidade e até episódios de assédio marcaram a trajetória de algumas praticantes. “Ele me puxou para um pouco longe e falou no meu ouvido: ‘quando você vai ser minha?’ Eu fiquei sem reação, desconversei e saí”, relatou uma entrevistada.

Embora não existam estudos conclusivos a esse respeito, é possível observar uma tendência no jiu-jitsu que se assemelha à dificuldade das mulheres em atingir posições de liderança no mercado de trabalho, já que também enfrentam obstáculos na progressão de faixas. Uma das praticantes compartilhou sua experiência: “Eu levei 13 anos da faixa marrom à faixa preta. Eu estava mantendo uma baixa de frequência de treino por causa do trabalho, mas ainda continuava treinando. Só que eu me sentia invisível na academia. [...] dava aula melhor que muitos professores faixas pretas, e continuava faixa marrom. Foram longos e duros anos”. A faixa preta pode ser obtida quando se está a pelo menos um ano na faixa marrom. 

Os estereótipos ligados à ideia de corpo frágil e a resistência dos colegas homens também é um desafio para as jiu-jiteiras. As diferenças físicas são um desafio real, mas o preconceito nos tatames muitas vezes se torna ainda mais marcante e as mulheres são maltratadas pelos homens: “Quando as mulheres começam a frequentar aulas mistas, é muito difícil pois muitas são maltratadas pelos homens devido às enormes diferenças de tamanho e força. As mulheres raramente recebem aquela vibração positiva que os caras recebem quando rolam (o sparring, a luta corpo a corpo)”. 

Os relatos evidenciam como a permanência feminina no esporte é atravessada por barreiras de gênero que vão do assédio até injustiças institucionais. Ao mesmo tempo, revelam a força das participantes para resistir e insistir em ocupar os tatames. O estudo aponta que essa resistência não se limita somente ao âmbito esportivo, mas também reflete lutas sociais mais amplas por igualdade e reconhecimento. 

Uma das participantes relatou que têm mais medalhas do que bolsas. Foto: arquivo pessoal da pesquisadora. 

A representatividade surge como elemento central para explicar a permanência. Ver outras mulheres em posições de destaque inspira novas trajetórias e desafia a hegemonia masculina. Um fenômeno relatado pelas lutadoras está relacionado ao esforço em apoiar iniciantes como forma de fortalecer a presença no esporte - e por lembrar como foi importante receber ajuda no início de uma pessoa mais experiente. 

No balanço dos depoimentos, o jiu-jitsu aparece como um espaço paradoxal - ao mesmo tempo que expõe vulnerabilidades e dificuldades, abre caminho para força e pertencimento:

Elas não vestem apenas o kimono - vestem cicatrizes, silêncios engolidos, e a firmeza de quem se recusa a ceder. [...] São guerreiras - não porque não sentem medo, mas porque não a deixam decidir. No jiu-jitsu, encontraram mais que técnica: encontraram irmandade, voz, coragem. 

A dissertação de mestrado intitulada “A mulher na arte suave: uma análise fenomenológica da participação feminina no jiu-jitsu brasileiro” está disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP e pode ser acessada na íntegra clicando aqui

Editoria: 
Texto: 
Guilherme Ike
Estagiário sob Supervisão de Paula Bassi
Seção de Relações Institucionais e Comunicação

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