Levantamento aponta ausência de áreas estratégicas, conselhos inchados e dificuldades na adoção de práticas modernas.
O futebol brasileiro é uma potência econômica que movimenta bilhões de reais todos os anos. No entanto, por trás dos elencos milionários e dos estádios modernos, os bastidores da maioria dos clubes do país ainda funcionam sob as regras do amadorismo e de velhas práticas políticas.

Levantamento identifica falhas de gestão e excesso de política no futebol nacional. Foto: Mylo Kane/Pexels.
Essa é a conclusão de um estudo pioneiro conduzido por pesquisadores da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE-USP), da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA-USP) e da Universidade Federal de Lavras (UFLA). O grupo analisou a presença digital e a estrutura organizacional de clubes profissionais que disputaram as quatro divisões do Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil.
O diagnóstico, publicado na revista científica Sport, Business and Management, mostra que a modernização do nosso futebol ainda esbarra em administrações engessadas, que ignoram a tecnologia e priorizam acordos políticos internos.
O 'apagão digital' e a falta de transparência
Para mapear como os clubes se organizam, a equipe de cientistas investigou os documentos institucionais e estatutos disponíveis nos canais oficiais das equipes.
Infográfico elaborado a partir de dados do estudo. Clique para ampliar.
O primeiro indicador de fragilidade encontrado pelos pesquisadores foi a comunicação digital básica: das 131 agremiações analisadas, cerca de 31% (41 clubes) sequer possuíam um site oficial. Para os autores, a ausência de um canal oficial de informação é um forte indício de gestão amadora.
A transparência administrativa também se mostrou escassa. Entre os 90 clubes que possuem site, apenas cerca de 23% disponibilizavam seu organograma oficial para o público.
A divulgação dessa estrutura é mais frequente na Série A (60%), enquanto nas divisões inferiores ela permanece limitada, o que reduz a disponibilidade de informações para torcedores, pesquisadores e potenciais investidores.
Estruturas focadas no básico
Entre os clubes que divulgavam organogramas, todas as equipes possuíam áreas de Presidência, Administração/Finanças e Futebol Profissional. Marketing (66,7%) e Jurídico (57,1%) também aparecem com frequência.
Infográfico elaborado a partir de dados do estudo. Clique para ampliar.
Por outro lado, nenhum dos 21 clubes analisados possuía departamentos dedicados à inovação, tecnologia, análise de dados, internacionalização ou diversidade. Até mesmo áreas exigidas por órgãos reguladores, como Segurança e Relação com os Fãs apareceram apenas em 4,8% dos casos.
O peso da política interna
Cerca de 93% dos clubes brasileiros são associações civis sem fins lucrativos, modelo em que a gestão depende de processos eleitorais e articulações internas.

O estudo mostra que a nomeação de aliados para funções estratégicas pode prejudicar a competitividade das equipes. Foto: Magnific.
Enquanto especialistas recomendam conselhos com 5 a 15 integrantes, o estudo identificou clubes com órgãos que chegam a reunir entre 100 e 390 membros. Segundo os pesquisadores, essa inflação serve muitas vezes para acomodar grupos políticos e garantir apoio à diretoria, o que pode gerar conflitos de interesse e dificultar a tomada de decisões técnicas.
Tal dinâmica resulta na criação de cargos redundantes e sem critérios técnicos. Em sua maioria, esses postos são ocupados por voluntários indicados por alianças políticas, sem formação especializada na área de gestão.
Como consequência, a carência de estrutura profissional empurra os clubes para um modelo de gestão baseado no "faz-tudo", onde funcionários e voluntários acumulam múltiplas funções para suprir os departamentos inexistentes.
Para incentivar a profissionalização dos clubes, a Lei 14.193/2021 criou a Sociedade Anônima do Futebol (SAF), modelo que permite que o futebol profissional seja transformado em uma empresa com fins lucrativos, separando-o juridicamente das atividades sociais da associação original.
Apesar de facilitar a entrada de investimentos, os pesquisadores alertam que a mudança jurídica, por si só, não resolve problemas de gestão e pode reduzir os recursos destinados a outras atividades mantidas pelos clubes.
Caminhos para a profissionalização
O estudo ressalta que o atraso administrativo não é uma regra invencível, destacando os casos de Flamengo e Palmeiras. No período avaliado, mesmo sem adotar o modelo SAF, os clubes reduziram a interferência política no departamento de futebol, fortaleceram os controles financeiros e passaram a ocupar cargos estratégicos com profissionais especializados.
Para os pesquisadores, esses casos mostram que a modernização da gestão não depende apenas do modelo jurídico adotado. O futebol brasileiro ainda enfrenta um crescente gap de maturidade administrativa em relação ao europeu, especialmente nas divisões inferiores.
Para reduzir essa diferença, o estudo defende uma mudança de mentalidade: é necessário migrar de uma cultura amadora para uma cultura corporativa, baseada em transparência, especialização profissional e critérios técnicos de gestão.
O estudo Organisational models of professional football clubs in Brazil é de autoria dos pesquisadores Roger Luiz Brinkmann, Pedro Lucas Leite Parolini, Eduardo de Oliveira Cruz Carlassara, Renan Barabanov de Assis, Ivan Furegato Moraes e Ary José Rocco Júnior e está disponível em:










