Educação Física escolar como caminho para a autonomia motora e uma vida ativa

Novo modelo de Educação Física escolar proposto por pesquisadores da EEFE-USP aposta na autonomia dos alunos e avança para avaliação em larga escala. 
 

Correr, saltar, arremessar, equilibrar-se e chutar são ações que fazem parte do cotidiano infantil. Embora pareçam simples, essas habilidades, conhecidas como habilidades motoras fundamentais, são consideradas a base para a participação em esportes, jogos, brincadeiras e diversas atividades físicas ao longo da vida.

Estudos mostram que crianças com maior competência motora tendem a ser mais ativas, apresentam melhor aptidão física e menor risco de excesso de peso na infância e na adolescência. Apesar disso, muitas hoje têm desempenho abaixo do esperado para a idade.

Habilidades motoras básicas são a base para o desenvolvimento esportivo a longo prazo. Foto: Livia Borges.

Diante desse cenário, as aulas de Educação Física passaram a desempenhar um papel ainda mais central. Para transformar essa realidade, pesquisadores do Laboratório de Comportamento Motor (LACOM) da EEFE-USP, em parceria com a Universidade do Porto, desenvolveram e estão avaliando um novo método de ensino para a Educação Física escolar. 

Alinhada às diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a metodologia, que já demonstrou eficácia em testes iniciais no Brasil e em Portugal, começa agora a ser implantada em larga escala em redes municipais de cidades do interior paulista, envolvendo milhares de alunos. 

Evidências construídas passo a passo

Antes de ganhar escala, o novo método de ensino passou por rigorosos testes longitudinais. Um estudo inicial, realizado em uma escola brasileira com um programa de apenas dez aulas, apontou melhorias imediatas tanto nas habilidades motoras fundamentais quanto em habilidades esportivas.

Além dos resultados imediatos, um dos achados mais relevantes foi que a melhora do desempenho nas HMF continuaram a influenciar a melhora do desempenho das habilidades esportivas entre 8 e 20 meses após o final intervenção, sugerindo que o desenvolvimento das habilidades motoras fundamentais gera efeitos graduais e duradouros, servindo de base para aprendizagens mais complexas. 

Em seguida, a metodologia foi levada a escolas portuguesas para um teste ampliado com crianças de 6 e 7 anos. Ao comparar a nova metodologia com o programa tradicional (programa apresentado pela Secretaria de Educação) de Educação Física, os pesquisadores observaram ganhos significativos na competência motora global.

O novo método ajudou as crianças com pior desempenho motor a não ficarem para trás e garantiu que avançassem com a turma.  Foto: Lívia Borges. 

No entanto, o principal achado foi o caráter inclusivo da proposta: as crianças que apresentavam os menores desempenhos no início do projeto foram as que mais evoluíram. 

Enquanto nas aulas tradicionais elas permaneciam estagnadas, no novo método tiveram maior probabilidade de alcançar níveis intermediários e avançados de proficiência. Segundo os pesquisadores, esse resultado está relacionado a características específicas da proposta pedagógica. 

Para Fernando Garbeloto, professor da EEFE-USP e um dos responsáveis pelos estudos, o principal diferencial da proposta é garantir oportunidades de aprendizagem para todas as crianças: 

Nosso objetivo é desenvolver a competência e a autonomia motora. Quando a criança se sente capaz de correr, saltar, arremessar, chutar ou participar de jogos com sucesso, aumenta também sua disposição para se envolver em atividades físicas, esportivas e recreativas ao longo da vida.

Tecnologia para a escola pública

O sucesso dos testes iniciais pavimentou o caminho para uma nova fase da pesquisa, agora aplicada em larga escala por meio dos projetos EducAção, em Matão (SP), e Movimenta Rio Pardo, em São José do Rio Pardo (SP). Desenvolvidas em parceria com as redes municipais de ensino, as iniciativas envolvem milhares de estudantes do Ensino Fundamental. 

O objetivo atual dos pesquisadores é compreender como o desenvolvimento motor se conecta a outras dimensões do desenvolvimento humano, como a saúde física e as competências socioemocionais. 

Para monitorar os milhares de alunos sem interferir na dinâmica escolar, a equipe do projeto recorre a um robusto ecossistema tecnológico: 

  • Acelerômetros triaxiais: Sensores de movimento acoplados ao corpo dos alunos para mensurar de forma objetiva o nível e a intensidade das atividades físicas diárias;
  • Aplicativo KeyMove: Plataforma digital utilizada pelos pesquisadores para registrar e acompanhar, em tempo real, a evolução motora e o nível de engajamento dos estudantes durante as aulas;
  • Instrumentos Socioemocionais: Questionários validados e disponibilizados pelo Instituto Ayrton Senna para monitorar o bem-estar e o desenvolvimento comportamental das crianças.

Alunos do município de São José do Rio Pardo realizam os questionários. Foto: Fernando Garbeloto. 

Em Matão, sob a coordenação do professor Garbeloto e de Rodrigo Pedrassolli, da Secretaria Municipal de Educação, a fase de diagnósticos foi concluída e as escolas já iniciaram as aulas práticas com a nova metodologia.

Enquanto em São José do Rio Pardo, o projeto ganha contornos de cooperação internacional, reunindo cientistas do Brasil (Prof. Dr. Marcelo Callegari Zanetti) , de Portugal (Profa. Dra. Sara Pereira) e do Canadá (Prof. Dr. Marcos Balbinotti). Os dados de diagnóstico estão em fase final de coleta, e a implementação do método nas quadras escolares está prevista para começar em agosto. 

O pesquisador Fernando Garbeloto (EEFE-USP) durante a implementação das aulas práticas com os estudantes.

Sobre a amplitude dos resultados esperados, Garbeloto destaca: 

A expectativa não é apenas verificar se as crianças se movimentam melhor, mas compreender como o desenvolvimento motor se integra aos demais domínios do desenvolvimento humano.

Os projetos contam com o apoio das prefeituras locais e receberam financiamento público do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Ao acompanhar milhares de crianças ao longo dos próximos anos, a expectativa dos pesquisadores é produzir evidências sobre como a Educação Física escolar pode contribuir para o desenvolvimento motor e para a promoção da saúde desde a infância, ampliando o entendimento sobre o papel da escola nesse processo e fornecendo subsídios para futuras políticas públicas de educação e saúde em nível nacional. 
 

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Artigos científicos

Editoria: 
Texto: 
Guilherme Ike
Estagiário sob Supervisão de Paula Bassi
Seção de Relações Institucionais e Comunicação

Desenvolvido por EEFE-USP