Pesquisa mostra que barra baixa e calçado com salto reduzem oscilação corporal e aumentam eficiência do movimento em alta intensidade.
O agachamento é um dos movimentos mais importantes e exigentes do powerlifting, modalidade esportiva que testa a força máxima dos atletas. Além de demandar grande produção de força, o exercício envolve alto grau de instabilidade e controle postural, especialmente em cargas mais elevadas. Nesse contexto, mesmo pequenas variações técnicas podem ter impacto direto no desempenho e na segurança do movimento.

Modalidade que testa a força máxima dos atletas, o powerlifting foi objeto de investigação científica no Laboratório de Biomecânica da EEFE-USP. Foto: Binyamin Mellish/Pexels.
Com isso em mente, Eduardo Alves Saramago, sob orientação do Prof. Dr. Júlio Cerca Serrão, investigou em sua tese de doutorado como duas escolhas comuns entre os atletas — a altura do posicionamento da barra nas costas e o tipo de calçado utilizado — afetam variáveis biomecânicas determinantes do desempenho no agachamento. O estudo analisou, de forma integrada, aspectos relacionados à estabilidade corporal, à dinâmica das forças aplicadas ao solo e à cinemática do movimento.
Os resultados indicam que o uso da barra posicionada mais baixa nas costas e de calçados com salto pode trazer vantagens biomecânicas importantes para atletas de powerlifting, como maior estabilidade, menor percepção de esforço e melhor eficiência na execução do movimento, especialmente em condições de alta intensidade.
Desenho do estudo e protocolo de testes
Para chegar a essas conclusões, o estudo contou com a participação de 15 atletas masculinos de powerlifting, com média de agachamento superior a 200 kg. A amostra foi rigorosamente selecionada entre competidores ativos e ligados à Confederação Brasileira de Levantamentos Básicos (CBLB), garantindo que os dados refletissem o desempenho de quem realmente vive o esporte. Os voluntários possuíam experiência prática considerável, com média de quase cinco anos dedicados ao treinamento de força.
O estudo foi realizado no Laboratório de Biomecânica da EEFE-USP entre 2022 e 2024 e cada atleta foi avaliado em quatro condições experimentais: barra alta com calçado plano, barra alta com calçado com salto, barra baixa com calçado plano e barra baixa com calçado com salto. O delineamento do estudo foi do tipo crossover, permitindo que todos os participantes passassem por todas as combinações testadas.

Registro da etapa de coleta de dados no Laboratório de Biodinâmica. Imagem: Acervo da pesquisa/Eduardo Saramago.
Os testes foram realizados com uma carga de 82,5% de 1 RM, simulando a intensidade de um treino pesado ou de uma fase final de preparação competitiva. Para garantir a validade dos movimentos, um árbitro de nível internacional da IPF supervisionou as execuções. Durante os testes, foram coletados dados de força de reação do solo, deslocamento do centro de pressão (COP), trajetória e velocidade da barra, ângulos articulares e percepção subjetiva de esforço. A análise combinou plataformas de força e sistemas de captura de movimento tridimensional, garantindo alta precisão nas medições biomecânicas.
Impactos biomecânicos da técnica e do calçado
Os resultados mostraram que o uso de calçado com salto aumentou a estabilidade corporal durante o agachamento, independentemente da preferência prévia dos atletas. Isso ocorreu por meio da redução da oscilação do centro de pressão, especialmente no sentido ântero-posterior, fator diretamente relacionado ao controle do equilíbrio dinâmico.

Os dois principais tipos de calçados usados por atletas no agachamento competitivo e no treinamento de força. Imagem: Acervo da pesquisa/Eduardo Saramago.
Em relação ao posicionamento da barra, a técnica com barra baixa apresentou vantagens consistentes quando comparada à barra alta. Os atletas demonstraram maior inclinação do tronco, o que favorece a ativação da cadeia muscular posterior, além de uma mecânica mais eficiente na produção de força.
A condição de barra baixa também esteve associada a maior velocidade média da barra na fase ascendente do movimento e menor duração dessa fase, indicadores indiretos de melhor desempenho. Além disso, os atletas relataram menor percepção subjetiva de esforço ao utilizar essa técnica. Outro achado relevante foi a menor oscilação ântero-posterior da trajetória da barra na condição de barra baixa, sugerindo maior controle do movimento e maior eficiência na transferência de força do corpo para a barra.
A pesquisa contribui para preencher uma lacuna na literatura científica sobre o powerlifting, área ainda pouco explorada em estudos biomecânicos com atletas de alto rendimento. Com resultados consistentes, o estudo também reconhece limitações que orientam seus desdobramentos: a amostra contemplou apenas atletas homens de categorias de peso intermediárias, o que delimita a generalização dos achados, e as medidas eletromiografia, que poderiam aprofundar a compreensão sobre a ativação muscular, ainda não foram divulgadas por estarem vinculadas a um outro estudo do laboratório.
Essas lacunas, no entanto, já vêm sendo preenchidas no Laboratório de Biomecânica. Segundo o pesquisador, os dados de eletromiografia deverão ser divulgados em breve, e novas investigações com atletas mulheres estão em curso, incluindo avaliações biomecânicas e outros desfechos relacionados ao desempenho, ampliando o alcance das conclusões apresentadas.
A tese de doutorado intitulada “Efeito da altura do posicionamento da barra nas costas e do tipo de calçado em variáveis dinâmicas e cinemáticas determinantes do desempenho no agachamento de atletas de powerlifting” está disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP e pode ser acessada clicando aqui.








