Pesquisa da EEFE desenvolveu um método mais objetivo e quantificável, ajudando na precisão dos diagnósticos
Atualmente, o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) baseia-se na observação direta do paciente, entrevistas com familiares e testes neuropsicológicos. Por serem metodologias fortemente fundamentadas em avaliações comportamentais, tais processos podem apresentar um caráter subjetivo. Nesse sentido, especialistas buscam novas ferramentas que complementem a prática clínica com dados mais objetivos, precisos e quantificáveis.

Os jogos podem ajudar a revelar outros sinais que apontam para um diagnóstico de autismo, trazendo mais respaldo e precisão. Imagem: Pexels/Gustavo Fring.
É diante dessa necessidade que a pesquisadora Fernanda Orosco Guilherme, sob orientação do Prof. Dr. Jorge Alberto de Oliveira, desenvolveu um estudo utilizando um jogo interativo com captação de movimento para analisar padrões motores. O objetivo foi verificar se a tecnologia seria capaz de distinguir indivíduos com TEA de pessoas neurotípicas por meio de parâmetros sensório-motores, servindo como uma metodologia adicional no processo diagnóstico.
O estudo concluiu que o jogo foi eficaz ao identificar o tempo de resposta como um padrão motor relevante. Em comparação com o grupo neurotípico, indivíduos com autismo apresentaram respostas significativamente mais lentas em todos os momentos da tarefa. Esse achado evidencia o potencial dessa tecnologia como ferramenta complementar às avaliações tradicionais, proporcionando uma metodologia mais engajadora e capaz de captar sutilezas motoras que conferem maior precisão e rigor científico ao processo diagnóstico.
Jogos como aliados da ciência
Os chamados serious games (“jogos sérios”) são jogos, tecnologias e simuladores desenvolvidos com o propósito de treinar, educar, conscientizar ou até reabilitar pessoas, indo além do objetivo comercial e recreativo.

Exemplo de uma análise do comportamento motor por meio de um jogo. Imagem: acervo da EEFE.
Nesse contexto, tais ambientes virtuais destacam-se como ferramentas inovadoras e confiáveis para a análise comportamental. Quando aplicados ao TEA, permitem a coleta precisa de dados sobre coordenação motora, equilíbrio, estereotipias e padrões atípicos de movimento, reduzindo a subjetividade das avaliações clínicas tradicionais.
Além disso, esses jogos apresentam um potencial terapêutico relevante, ajudando indivíduos com autismo no desenvolvimento de habilidades motoras, físicas, sociais, comunicativas e emocionais em um ambiente lúdico e estimulante.
Análise motora em ambiente virtual
Em parceria com a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) do Município de Tatuí (SP), foram recrutados 38 indivíduos com diagnóstico clínico de autismo para o grupo experimental – sendo eles de ambos os sexos e com idade entre 5 e 25 anos. Para compor o grupo controle, mais 38 pessoas com desenvolvimento típico foram selecionadas para corresponder em gênero e faixa etária com o outro grupo.

Exemplo do funcionamento do jogo Bubbles utilizado na pesquisa. Imagem: extraída da dissertação.
A ferramenta utilizada pela pesquisadora foi o jogo Bubbles, no qual o participante deve usar seus braços para interceptar bolhas que surgem aleatoriamente na tela do computador, variando em direção, tamanho e tempo de permanência. Esse protocolo experimental foi realizado em uma única sessão, composta por três blocos de intervenção, sendo cada um deles constituído por três rodadas de um minuto.
Durante a tarefa, uma câmera capturou os movimentos em tempo real para mensurar o desempenho dos participantes e possibilitar a comparação futura entre os grupos. Os indicadores analisados pela pesquisa foram o tempo de acerto, a distância percorrida pelo alvo até a interceptação e a porcentagem de acertos.
Uma ferramenta promissora e acessível
Os resultados mostraram que o grupo experimental apresentou menor precisão de acertos, menor eficiência do trajeto motor até o alvo. O indicador mais expressivo, todavia, foi o tempo de resposta: os indivíduos com autismo foram significativamente mais lentos que o grupo controle durante toda a execução da tarefa.
Dessa forma, a pesquisa evidencia que o jogo foi capaz de captar e mensurar padrões sensórios-motores que caracterizam o autismo, gerando um conjunto de informações detalhadas e quantificáveis. A capacidade de processar múltiplos dados e de coletar sutilezas do desempenho motor aponta os jogos sérios como ferramentas promissoras para complementar e modernizar os métodos diagnósticos.

Jogos ou simuladores de realidade virtual mostram-se cada vez mais como ferramentas modernas, confiáveis e precisas para a ciência. Imagem: Portal da Indústria.
Para a pesquisadora, além da precisão diagnóstica, a tecnologia oferece baixo custo e alta atratividade para pessoas com autismo, servindo também como um recurso para acompanhar a evolução terapêutica dos pacientes.
“No futuro, esperamos que os jogos sérios se tornem uma ferramenta cada vez mais acessível e amplamente utilizada nos serviços de saúde pública”, completa Fernanda.
A dissertação, intitulada “Caracterização do Desempenho Motor em Indivíduos com Transtorno do Espectro Autista Utilizando um Jogo de Interceptação em Realidade Virtual Não Imersiva”, estará disponível em breve no Banco de Teses da USP.
O jogo Bubbles pode ser acessado gratuitamente por meio da plataforma Open Heal, que hospeda diversos jogos que auxiliam no diagnóstico, acompanhamento, tratamento e reabilitação de várias deficiências e condições de saúde.








