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Exercício ao fim do dia é melhor para hipertenso

Data: 11/09/19

O papel do exercício físico na saúde cardiovascular é comprovado e detalhado por inúmeros artigos na literatura científica. Porém, um fator bastante relevante para a eficiência do treinamento é pouco explorado pelas pesquisas da área: o horário quando esse exercício é feito.

 

Desde seu projeto de mestrado, o pesquisador Leandro Campos de Brito investiga as diferenças em se treinar de manhã e ao final do dia, do ponto de vista da saúde cardiovascular. No doutorado, defendido em 2018, ele avaliou 50 hipertensos e pôde constatar que o exercício físico feito entre 18h e 21h traz um maior benefício aos pacientes. A tese, intitulada “Influência da fase do dia nas adaptações cardiovasculares e no sono promovidas pelo treinamento aeróbico em hipertensos”, recebeu menção honrosa no Prêmio Capes de Tese – Edição 2019. Os estudos foram orientados pela Profa. Dra. Cláudia Lúcia de Moraes Forjaz e o doutorado foi coorientado pelo Prof. Dr. John Halliwill, da University of Oregon (Estados Unidos).

 


Leandro e a orientadora Cláudia Forjaz

 

Leandro explica que esse fenômeno está relacionado à ritmicidade circadiana, ou seja, às variações por que passam as funções do corpo humano em um período de 24 horas. No mestrado, ele averiguou que uma sessão de exercício físico realizada ao final do dia leva a uma queda da pressão arterial maior devido à capacidade de vasodilatação. No doutorado, a proposta foi aplicar um período de treinamento físico – e não apenas uma sessão. Para isso, foram mobilizados voluntários hipertensos do sexo masculino entre 30 e 65 anos e que já estavam medicados há pelo menos 4 meses utilizando a mesma classe e dose de anti-hipertensivos.

 

Esses indivíduos foram divididos em grupos que recebiam a intervenção de manhã (entre 7h e 10h) ou à noite (entre 18h e 21h). Cada um desses horários tinha o grupo controle – que só realizava alongamentos, sem efeito na pressão arterial – e o grupo de treinamento, para o qual foram prescritos exercícios que progrediram em intensidade de leve à moderada na bicicleta ergométrica, com duração de 45 minutos por sessão, 3 vezes por semana, durante 10 semanas. Os voluntários também eram submetidos a exames para avaliação da saúde cardiovascular, como eletrocardiograma, teste ergoespirométrico e medida da pressão arterial clínica e de 24 horas.

 

Os resultados demonstraram que os grupos de treinamento dos dois períodos obtiveram benefícios cardiovasculares, porém, o grupo noturno teve benefícios bem maiores. Foram feitas várias avaliações para constatar isso, uma delas sendo a medida de pressão arterial. No grupo noturno, a redução foi de até 8 mmHg, enquanto que nos voluntários do período matutino foi de 3 mmHg. Além disso, 90% do grupo noturno foram responsivos ao treinamento, contra 40% do grupo matutino. Isso quer dizer que pela manhã a variação da pressão arterial foi bastante diferente entre os indivíduos, enquanto que no outro grupo praticamente todos obtiveram esse benefício de forma significativa.

 

É importante destacar que a mudança pode variar nas pessoas com um perfil mais vespertino ou mais matutino. Por isso, foram selecionados voluntários com cronotipo intermediário, o que significa que não possuem uma preferência fisiológicapor determinado período. Leandro explica que grande parte das pessoas se encaixa nesse cronotipo intermediário pelas características do cotidiano da sociedade.

 

“Nos mamíferos, temos algumas pistas temporais que ajudam a ajustar a ritmicidade das nossas funções. Para os seres humanos, a principal delas é a claridade, mas outras também são importantes, como a rotina social e a alimentação”, explica. Ainda é necessário elucidar os mecanismos autonômicos neurais vasculares relacionados a esse ciclo e é esse aspecto que Leandro investiga em seu pós-doutorado juntamente com o doutorando Luan Avezêdo, contando também com a colaboração do Laboratório de Controle Autonômico da Circulação, coordenado pela Profa. Dra. Maria Urbana Pinto Brandão Rondon.

 Leandro e pesquisadoras realizam testes em voluntária

 

O pesquisador ressalta que o exercício físico leva ao benefício cardiovascular em qualquer horário do dia, sendo que sua pesquisa demonstra uma potencialização dos resultados, que pode ser importante para pacientes que têm dificuldade em responder ao tratamento – como obesos ou aqueles com hipertensão resistente. Além disso, o estudo pode trazer um novo fator importante a ser levado em consideração nas pesquisas da área, evitando interferências nos resultados de acordo com o horário do dia em que o treinamento é realizado.

 

Leandro é bolsista Fapesp e recebeu apoio de muitos pesquisadores do Laboratório de Hemodinâmica da Atividade Motora (Laham) durante as intervenções. A pesquisa foi publicada na revista do American College of Sports Medicine e foi noticiada, inclusive, na CBS Boston. Saiba mais nos links:
http://www.multibriefs.com/briefs/acsm/active062519.htm
https://journals.lww.com/acsm-msse/Fulltext/2019/04000/Morning_versus_Evening_Aerobic_Training_Effects_on.7.aspx
https://boston.cbslocal.com/2018/12/20/high-blood-pressure-exercising-evening-lower-healthwatch-dr-mallika-marshall/

 

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